DIMENSÕES PARALELAS
(Kisielewicz Lauro -07/07/2000)

Ao mesmo tempo em que pedipalpos tocavam-me o
corpo sem lascívia, colossais quelíceras de reluzentes e
monumentais extremidades pontiagudas apontavam em minha
direção, na iminência de penetrar-me a fragilizada carne;
Um misto de pavor e angústia assenhoreou-se de
minh'alma, precipitando meu coração em um descontrolado
galopar, antecipadamente oprimido, por antever e
previamente sentir a intensa dor que fisicamente ainda
nem me havia alcançado.
Salgado e tépido líquido embebia-me as faces, os
lábios e percebi então, que todo meu ser banhava-se em
descomunal profusão de suores, enquanto minha pulsação
extrapolava até mesmo os inimagináveis limites de
mensuração de sinais vitais...
Já não me sentia em mim...
Eu, já não era eu...
Meu corpo quedava envolvido por grossas e
viscosas cordas, as quais, tanto mais apertavam-se,
quanto maior esforço eu desenvolvesse na frustrada
tentativa de libertar-me, e vi-me sendo sugado por um
apocalíptico ser, assemelhando-se a uma galáctico
artrópode, geneticamente metamorfoseado em aracnídeo,
vindo quiçá das profundezas do averno, enviado que fora
pelo próprio Mefistófeles, com a missão única de, sem
eviscerar-me, ressequir meu corpo mumificando-me vivo
ainda com o intuito maior de interromper minha
trajetória na face deste corpo celeste que
silenciosamente baila pela Via Láctea ...
Lancinantes dores levavam-me a extremos delírios
e pavorosas alucinações que transcendiam todos os
humanos limites de tolerabilidade do sofrimento, prestes
a fazer-me desfalecer, quando repentinamente, na
velocidade de um flash, dissipam-se as trevas, e as
dimensões paralelas de um insondável universo de
múltiplas e desconhecidas facetas, de impalpáveis e
indecifráveis fronteiras que em nenhum mapa podem
constar, miscigenam-se e confundem-se, rompendo-se
indeléveis finíssimos e imperceptíveis véus que nos
separam de mundos outros, cujas existências são
ignoradas e nem sequer imaginadas por simples mortais
que como tais, são apenas mortais...
Ofegante e confuso, via-me novamente diante de
mim mesmo, transparecendo ainda na face, os danosos
efeitos de tão doloroso espasmo ao qual me foi permitido
conhecer, experimentar e felizmente, sobreviver.
E num simples repente, tudo que vi, senti vivi e
sofri, dissipou-se sem que nenhum resquício restasse, e
custava-me crer que nada mais foi que uma exacerbação da
minha própria mente, enquanto estava solta e absorta
naquilo que deveria ter sido, um repousante e
reconfortante dormitar, mas que, devido à inadequada
acomodação no leito, eu me havia engalfinhado com os
próprios lençóis e cobertores que, enrolados em mim,
afogavam-me, impedindo-me de respirar...

(Kisielewicz Lauro -07/07/2000)

ESSENCIAL
Lauro Kisielewicz


ESSENCIAL,
NÃO   É   O   PRAZER...

NEM   A   CARNE
QUE   SENTE   O   PRAZER...

NEM   A   VIDA
QUE   ANIMA   A   CARNE...

MAS   SIM
O   ESPÍRITO
QUE   ANIMA   A   VIDA,
POR   SER   ETERNO,

ESTE   SIM
É   ESSENCIAL !

Lauro Kisielewicz
25/Novembro/00

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